Como escolher a mochila para proteger as costas das crianças?
A mochila acompanha as crianças quase todos os dias durante o ano escolar. Livros, cadernos, estojo, garrafa de água e material para outras atividades, acabam muitas vezes por pesar para as costas da criança.
Escolher uma mochila adequada não passa apenas por procurar um modelo identificado como ergonómico. O tamanho da criança, o ajuste das alças, o peso transportado, a forma como o material é distribuído e até o percurso até à escola, influenciam.
O tamanho da mochila deve acompanhar o tamanho da criança
Comprar uma mochila maior para durar mais tempo, pode parecer a escolha mais prática, mas também traz prejuízos. Uma mochila demasiado grande tende a ficar mais baixa nas costas e também oferece espaço para transportar mais material do que o necessário. Por isso, o fator mais importante a ser levado em conta deve ser como a mochila assenta no corpo da criança.
Quando está ajustada, deve ficar próxima das costas e aproximadamente entre a zona abaixo dos ombros e a cintura. A American Academy of Pediatrics recomenda que a parte inferior fique junto à curvatura da região lombar e não muito abaixo da cintura.
A largura também deve ser proporcional ao tronco da criança. Se a mochila ultrapassa claramente a largura das costas ou desce muito abaixo da cintura, provavelmente é demasiado grande. Isto significa que duas crianças da mesma idade podem precisar de tamanhos diferentes.
Quanto pode pesar uma mochila escolar?
É frequente encontrar a indicação de que uma mochila não deve ultrapassar 10% do peso da criança. Outras recomendações admitem valores até cerca de 15%.
A revisão sistemática e meta-análise de Cuenca-Martínez et al. (2023), publicada na Pediatric Physical Therapy, analisou estudos sobre o efeito de mochilas com carga na postura e na marcha de crianças e adolescentes. Os autores encontraram alterações posturais e, durante a marcha, redução da velocidade e do comprimento da passada. Há, no entanto, uma nuance relevante: a meta-análise concluiu que nem todas as alterações aumentavam proporcionalmente com o peso da mochila.
Há estudos individuais que sustentam melhor a parte da tua frase sobre o aumento da carga:
- Tomal et al. (2022) - 26 crianças de 7 anos caminharam sem carga e com mochilas equivalentes a 10%, 15% e 20% do peso corporal. Com carga, caminharam mais devagar, deram passos mais curtos e passaram mais tempo em duplo apoio. As alterações tornaram-se mais evidentes acima dos 10%.
- Hong & Cheung (2003) - estudaram crianças com cargas de 0%, 10%, 15% e 20% do peso corporal e observaram um aumento significativo da inclinação do tronco, sobretudo com 20% e à medida que aumentava o tempo de marcha. O estudo está descrito numa revisão posterior.
- Estudo de 2019, Scientific Reports — avaliou 57 crianças dos 7 aos 9 anos com cargas de 0%, 10% e 15% do peso corporal. Verificou alterações na distribuição da pressão e das forças plantares e algumas alterações da marcha com o transporte da mochila.
- Estudo com análise tridimensional da marcha — uma mochila de cerca de 15% do peso corporal levou a menor velocidade, passos mais curtos e maior inclinação anterior da pélvis e do tronco.
Na prática, faz sentido manter a mochila tão leve quanto possível e considerar 10% do peso corporal uma referência prudente, sobretudo quando a criança percorre distâncias maiores a pé.
Uma criança com 20 kg teria, por exemplo, uma referência de cerca de 2 kg; uma criança com 30 kg, cerca de 3 kg; e uma criança com 40 kg, cerca de 4 kg.
Não significa que ultrapassar ligeiramente estes valores provoque uma lesão. O tempo durante o qual a mochila é transportada, a condição física da criança, o percurso e a própria distribuição da carga também contam. Num estudo com mais de cinco mil alunos, o tempo de transporte mostrou uma relação mais forte com a dor nas costas do que o peso isolado da mochila.
O que procurar antes de comprar?
Uma boa mochila escolar não precisa de ter uma estrutura complicada. Algumas características simples fazem mais diferença no uso diário. As duas alças devem ser largas, acolchoadas e reguláveis. Permitem aproximar a mochila das costas e distribuir a carga pelos dois lados do corpo.
Um painel posterior acolchoado pode tornar o contacto com livros e outros objetos mais confortável, enquanto diferentes compartimentos ajudam a impedir que todo o conteúdo se acumule num único ponto.
Se existir uma cinta peitoral ou abdominal, esta pode ajudar a estabilizar a mochila e reduzir o movimento durante a marcha, sobretudo quando existe mais carga. A utilidade depende, naturalmente, de estar corretamente ajustada.
O peso da própria mochila também merece atenção. Uma estrutura muito pesada ocupa parte da carga que a criança terá de transportar antes de se colocar sequer um livro no interior.
A forma de arrumar também faz diferença
A forma de arrumar a mochila faz a diferença. Isto porque o lugar onde os objetos são colocados influencia a forma como a carga se comporta durante a caminhada.
Os objetos mais pesados, como livros grandes ou um computador, devem ficar próximos das costas e bem fixos dentro da mochila. Materiais mais leves podem ocupar os compartimentos exteriores.
Distribuir os objetos por diferentes compartimentos também evita que todo o conteúdo se desloque para um dos lados enquanto a criança caminha. A American Academy of Pediatrics recomenda precisamente o uso dos diferentes compartimentos para distribuir melhor a carga.
Uma revisão semanal da mochila costuma resolver uma parte surpreendente do problema. Papéis antigos, livros que não são necessários naquele dia, brinquedos, material de educação física ou garrafas demasiado grandes podem acrescentar peso sem qualquer utilidade naquele percurso.
Uma alça ou duas?
É importante que as duas alças sejam usadas. Mesmo que a criança ache mais rápido colocar a mochila apenas num ombro, usar ambas as alças permite que a carga fique centrada e evita que o corpo tenha de compensar constantemente um peso colocado de um só lado.
Isto não significa que usar ocasionalmente uma alça provoque uma deformação da coluna. A questão é sobretudo de distribuição da carga e conforto muscular. A recomendação das principais entidades pediátricas e ortopédicas continua, por isso, a ser utilizar as duas alças e ajustá-las para que a mochila fique próxima do corpo.
As alças também não devem ficar excessivamente compridas. Quando a mochila balança ou fica muito abaixo da cintura, aumenta a distância entre a carga e o corpo, o que obriga a maiores adaptações durante a marcha.
Mochila com rodinhas ou mochila às costas?
As mochilas com rodinhas podem ser uma boa solução quando existe muito material para transportar ou quando uma criança não deve suportar determinada carga às costas.
Em piso plano, puxar um trolley tende a exigir menos atividade de vários músculos do tronco e dos membros inferiores do que transportar uma mochila. Um estudo publicado em 2024 encontrou precisamente essa vantagem em terreno plano.
Mas quando o piso têm muitas escadas, a criança precisa de levantar e transportar o trolley, que costuma ser mais pesado do que uma mochila convencional devido à estrutura, rodas e pega. No mesmo estudo, a mochila mostrou-se mais eficiente do que o trolley nas subidas e descidas de escadas.
Há ainda uma questão prática. Num corredor cheio ou numa escola com muitas escadas, uma mala de rodinhas pode ser mais difícil de manobrar e transformar-se num obstáculo para outras pessoas.
Por isso, a decisão deve ter em conta o percurso real da criança. Se passa grande parte do tempo em superfícies planas e transporta bastante material, as rodinhas podem fazer sentido. Se sobe vários lanços de escadas diariamente, uma mochila leve e bem ajustada pode ser mais prática.
O corpo da criança dá sinais quando a mochila não está bem
Se a criança se inclina claramente para a frente assim que coloca a mochila, tem dificuldade em colocá-la ou retirá-la, refere pressão excessiva nos ombros ou precisa de alterar a forma de caminhar para suportar a carga, vale a pena rever o peso e o ajuste.
Marcas profundas provocadas pelas alças, dormência ou formigueiro nos braços também não devem ser ignorados.
Dor persistente nas costas merece uma avaliação própria. Não se deve assumir automaticamente que a mochila é a causa, sobretudo quando a dor aparece sem mochila, acorda a criança durante a noite, persiste durante vários dias ou está associada a outros sintomas. A dor nas costas durante a infância e adolescência pode ter várias origens e, nesses casos, deve ser discutida com um profissional de saúde.